No segundo dia do Encontro, os 80 Professores e Coordenadores presentes dividiram-se em grupos para debater os temas propostos nos painéis elaborados pelo Comitê Permanente de Professores e Coordenadores da ABD e pelo Diretor, Alex Lipszyc, da Escola Panamericana de Arte e Design (SP).

Os temas relacionados à formação profissional do Designer de Interiores foram divididos em painéis com diferentes enfoques:

Acompanhe um resumo das principais conclusões:

 
Painel 1 - A Formação Profissional
Painel 2 - Empreendedorismo: como preparar para a gestão do seu próprio negócio
Painel 3 - A Cultura Brasileira e o Design de Interiores
Painel 4 - Consumidores: como atrair e abrir novos segmentos de clientes
Painel 5 - TCC: um balanço da realidade nacional
Painel 6 - Ética e Consciência Ambiental: novos comportamentos
 

Painel 1: A Formação Profissional
Qual enfoque prioritário de cada aspecto-chave na formação do profissional: artístico, técnico ou humano?

Discussão
Grupos 1 e 2 + Contribuições Plenário

Conclusões
Os três aspectos são igualmente importantes na formação do profissional. É fundamental despertar no aluno o potencial criativo e Artístico. O domínio da Técnica permite que todos possam desenvolver um Projeto de Interiores com relativa capacidade criativa. A criatividade é muito mais do que um dom. Se fosse apenas dom, porque estimular o aprendizado? É claro que existem pessoas com diferentes habilidades, mas é possível dar a todos a mesma capacidade de desenvolver um bom Projeto. Esse é o papel do Professor. Aí está uma de suas mais valiosas contribuições.

Deve-se valorizar no aspecto Artístico a história - não só a universal, mas também, a realidade nacional - a cultura social, expressa nos diversos perfis que compõe a identidade da sociedade brasileira e a Pesquisa, que estimula o aluno a compreender a dimensão de um determinando ambiente físico, sua vocação e sua importância para o entorno. A história ainda está associada à compreensão do universo de uma pessoa (cliente), sua vida familiar, seus valores. É preciso respeitar essa história de vida.

No campo Técnico fica evidente a dificuldade (ou o desafio) de acompanhar a evolução tecnológica e atualizar os Professores de forma a transmitir esses novos conhecimentos para os alunos. Uma aproximação efetiva com a indústria é algo desejável e necessário. Uma ferramenta aliada nesse processo é a Internet que permite ao estudante acessar mais rapidamente novos conhecimentos. Essa ferramenta deve estar presente em todo o sistema de aprendizado, pois vai fazer parte da vida profissional no exercício da especificação de produtos e sistemas.

Deve-se destacar a responsabilidade cada vez mais crítica do profissional nessa especificação, não só em função do desempenho desses elementos presentes na obra, bem como, sua conseqüente preocupação com a proteção do meio ambiente e qualidade de vida em geral.

O excesso de valor no campo Artístico, motivado pelas revistas e as mostras de decoração, supervaloriza o lado Estético na percepção do papel do profissional e do Projeto de Interiores pelos clientes em geral, em detrimento do valor que deveria ser maior para o domínio de conhecimentos técnicos que determinam o nível de conforto, funcionalidade e segurança, atributos que devem estar presentes em todo o Projeto de Interiores.

No lado do Humano da formação é necessário desenvolver a habilidade de relacionamento com o Cliente e com fornecedores, além de outros agentes com os quais o profissional interage durante a criação e execução do Projeto de Interiores. Compreender o universo do Cliente, buscar uma intimidade, mas mantendo o distanciamento necessário para não confundir as relações, é condição muito importante e deve estar sendo foco de preocupação na formação profissional. O fator psicológico presente nas relações com todos esses indivíduos pode determinar o sucesso profissional.

 

Painel 2: Empreendedorismo: como preparar para a gestão do seu próprio negócio

Discussão
Grupos 3 e 4 + Contribuições Plenário

Conclusões
A formação está direcionada para preparar o aluno a exercer a natureza essencial da sua profissão: conceber e efetivar um bom Projeto de Interiores. A visão mercadológica da profissão está presente nos Cursos através da orientação dada ao aluno para que ele se preocupe prepare-se para atuar em diferentes segmentos de clientes: residenciais e comerciais – e nessa área comercial, cada vez mais, prepara-se o aluno para diversas possibilidades: varejo, hotelaria, clínicas etc.

Essa preparação acontece através da proposição de desafios (trabalhos) durante o curso, bem como, trazendo cases para estudo.

Mas, de fato, existe uma lacuna na preparação do aluno para enfrentar a dinâmica do mercado, já que o empreender não está plenamente sendo disseminado. A visão artística da profissão acaba prevalecendo em detrimento à capacitação enquanto empresário. Isso leva a uma situação crítica, uma vez que boa parte dos alunos atuará como profissional autônomo, o que exige conhecimentos efetivos em administração e finanças além de Marketing, por exemplo.

Quanto ao início da carreira, existe uma tendência em direcionar o aluno para atuar como estagiário em escritórios de Arquitetura, por exemplo, mas pouco preparo para que ele possa gerenciar o seu próprio negócio. O aprendizado nesse sentido acaba acontecendo durante esse estágio ou no primeiro emprego (no escritório de um Arquiteto ou Designer de Interiores) onde não se encontra um ambiente propício, já que a visão empreendedora inexiste de forma geral em muitos profissionais do setor (formados da mesma maneira – nos cursos de Arquitetura a realidade é a mesma).

A carência, então, é real e exige uma nova conduta das Escolas, incluindo no currículum uma cadeira específica, de longa duração. É necessário oferecer ao aluno disciplinas com foco em gestão do negócio e que explore conceitos como Marketing, Técnicas de Vendas, Gerenciamento de Pessoas etc.

 

Painel 3: A Cultura Brasileira e o Design de Interiores

Discussão
Grupo 5 + Contribuições Plenário

Conclusões
Em um mundo dominado pela globalização existe uma tendência natural de convivermos, cada vez mais, com a diversidade cultural. Isso não significa que a importação de modelos sufoque nossas raízes, tradições e exige de nós que viremos às costas à produção cultural brasileira.

O mercado do Design de Interiores consome em demasia elementos estrangeiros, nem sempre dando valor aos produtos e criações locais. Copiar produtos e características de Projeto acaba sendo uma atitude freqüente. A questão é: qual seria a expectativa do Cliente? Esse Cliente exige essa postura ou é pressionado a aceitar por imposição do criador (ou copiador)? Cabe ao profissional o papel de orientar o Cliente e (nesse papel) valorizar a cultura nacional, sem xenofobismo.

A cultura brasileira impacta criadores em todo o mundo no cinema, na música, na moda. Por que não pode ser assim no Design e na Arquitetura? Por outro lado, há um excessivo foco em centros produtores de cultura como o Salão de Milão, que acaba determinando padrões nem sempre coerentes com a nossa realidade. A indústria que cria produtos e os mostra em Milão basicamente o faz pensando em um consumidor europeu que vive em um meio ambiente totalmente diferente do nosso. Só isso já é suficiente para distinguir aspectos como cores, formas etc.

Tendência é outra questão polêmica associada ao tema cultura. O que nos anos 50, 60 e 70 poderia ser definido como tendência, perdeu sentido nesse mundo globalizado, conectado, mas segmentado. O que é tendência? Aquilo que é apontado como tendência na verdade já é consumo e não tendência. Tendência deveria ser tudo aquilo que estivesse associado a algo que virá. Mas não é mais assim. O que se rotula de tendência nada mais é do que consumo massivo. Ao seguir a “tendência” acaba-se por copiar algo que já está disseminado, exaustivamente.

Para transformar esse discurso em prática é preciso agregar ao ensino:
- Referências bibliográficas;
- Pesquisa de materiais regionais;
- Incentivo aos trabalhos de conclusão, mostras e concursos com esse tema.

Ainda nesse Painel, ficou evidente a necessidade de agregar como componente do projeto a preocupação com a Sustentabilidade.

 

Painel 4: Consumidores: como atrair e abrir novos segmentos de clientes.
Questão 1: O ensino está orientado para o perfil de cliente com alto poder aquisitivo?
Questão 2: O Design de Interiores e os projetos para clientes com médio e baixo poder aquisitivo – como atender essa demanda.
Questão 3: Como ampliar a atuação em segmentos de performance (comercial)

Discussão
Grupos 6 e 7 + Contribuições Plenário

Conclusões
É unânime a constatação de que o ensino não está evidenciando apenas o consumidor com alto poder aquisitivo. O próprio perfil do aluno de Design de Interiores mudou muito e, hoje, esse futuro profissional vem de classes sociais de médio e baixo poder aquisitivo, realidade que de per si já orienta para um outro perfil de clientes.

Para que essa visão seja efetiva, é importante conduzir o aluno na pesquisa de fornecedores com produtos de qualidade, mas com preços competitivos. Existe no segmento um certo víeis de especificar itens de alto valor agregado, pois são estes elementos que freqüentam as páginas das revistas e são destaques nas mostras de decoração.

Existe nesses alunos a aspiração de ascensão social, simbolizada por participar de eventos como Casa Cor ou representada no acesso às páginas das revistas de decoração. O belo e o sucesso estão associados a criar projetos para pessoas ricas. Esse é o modelo.

Mas são os clientes com médio poder aquisitivo que, hoje, movimentam o mercado imobiliário em todo o Brasil. Para atender esse segmento é preciso mudar a percepção desse cliente a respeito do profissional Designer de Interiores. Pesquisa promovida pela ABD junto a leitores de revistas de decoração (universo de público composto de pessoas com médio poder aquisitivo) mostrou que as principais restrições à contratação do profissional são:

- receio de que intervenção do profissional encareça o projeto;
- medo de que não será cumprido um orçamento; e
- insegurança quanto ao fato de que o profissional não vai ouvir os desejos do cliente, mas impor suas convicções.

Portanto, trabalhar esses fatores restritivos também é condição-chave para preparar o aluno para enfrentar a dura realidade de mercado: a conquista de novos clientes.

Para estimular nos alunos o interesse em desenvolver projetos para as classes sociais com menor poder aquisitivo podem ser utilizadas as seguintes medidas:

- criar parcerias com ONGs;
- orientar TCCs;
- criar mostras de decoração com opções de produtos e elementos alternativos.

Na busca de clientes comerciais de segmentos pouco usuais na contratação de profissionais algumas Escolas relatam experiências inovadoras, tais como projetos executados para Polícia Militar, Instituto Médico Legal, Igreja entre outros.

 

Painel 5: TCC: um balanço da realidade nacional – exemplos e procedimentos.

Discussão
Grupos 8 e 9 + Contribuições Plenário

Conclusões
Como o grupo era constituído por integrantes de diferentes escolas, cada membro descreveu as experiências e práticas da respectiva escola.

Belas Artes:
O TCC é um trabalho que envolve um projeto, desenvolvido em forma de pesquisa e concepção, apresentado a uma Banca examinadora.

ETE Getúlio Vargas
É um projeto individual que envolve todas as disciplinas, com pesquisa, concepção e faz uma relação com os conteúdos aprendidos e a realidade do mercado.

UNIA – Santo André
No ultimo semestre o aluno desenvolve um projeto aplicando todos os conhecimentos adquiridos.

IBDI – Santa Catarina
Trata-se de um projeto em espaço real, que pode ser executado ou não, dependendo a disponibilidade do cliente. O projeto é passado por uma banca, com um representante do cliente.

ETE. Carlos de Campos
São dois projetos: um individual que o aluno desenvolve de um concurso, dentro de um cronograma de dois meses; o segundo é institucional baseado em um cliente real, que fornece o “briefing”. O projeto é submetido á uma Banca e pode ser coletivo ou individual.

ABRA
Depois que o aluno conclui toda a programação do curso, ele deve arrumar um cliente real e executar um projeto envolvendo a arquitetura e o mobiliário.

Senac S.J. dos Campos
O aluno faz um projeto de reforma de um estabelecimento como loja, hotel ou clinica. Depois o projeto é executado ou não, dependendo da disponibilidade do cliente.

Tema dos TCCs:
Os temas dos TCCs podem ser livres ou apresentados pela escola.

Orientação
- Individual
- Coletiva

TCC
- Instrumento
- Síntese da formação
- Liberdade de escolha dos temas
- Importância recíproca
- Ampliação do repertório

Recomendação Especial: que a ABD crie um ambiente para relacionar todos os TCC’s existentes nas Escolas Reconhecidas.

 

Painel 6: Ética e Consciência Ambiental: Novos Comportamentos

Discussão
Grupo 10 + Contribuições Plenário

Conclusões
A família como núcleo primitivo dá ao indivíduo um arcabouço que determina seus valores e pauta seu comportamento na sociedade. Cabe à Escola formar o profissional lapidando esses valores e os conduzindo para as boas práticas no exercício da profissão.

Neste ambiente onde o respeito ao direito do outro está em crise e levar vantagem pessoal sempre é a tônica, é relevante desenvolver no aluno o interesse em resguardar a satisfação do Cliente, bem como, atuar dentro de parâmetros expostos no Código de Ética proposto pela ABD.

A Escola deve moldar o comportamento do aluno em relação não só aos Clientes, como também, junto aos fornecedores, colegas e outros públicos. O educador desempenha uma função determinante nesse sentido e pode contribuir decisivamente para moldar o caráter do aluno, transformando-o em um profissional cioso de suas responsabilidades.

Consciência ambiental
As Escolas devem conduzir os alunos na correta especificação de produtos coerentes com o princípio de sustentabilidade: todo produto - seja industrializado, artesanal, residencial ou comercial – que não emitir poluentes tóxicos no ambiente e o processo de produção contribuir para o desenvolvimento sustentável é considerado um produto ecológico. Escolher materiais ecologicamente corretos e eficientes para o uso de interiores é uma preocupação fundamental na gestão de um projeto.
Outro ponto relevante é orientar o aluno no sentido de observar a procedência dos materiais utilizados, modo de produção e verificar se o fornecedor tem um programa de melhoria social e energética ou se é certificado pelo ISO 14001 – certificação das normas ambientais. Agindo assim, o profissional ajuda a filtrar as empresas que trabalham com esse tipo de produto. Contribuir para que a consciência sustentável seja colocada em prática é uma tarefa não só para Arquitetos e Designers de Interiores como também de seus clientes.