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A ARTE DE MOLDAR ESPAÇOS


Regulamentada pelo Crea-SP apenas esse ano, a profissão de designer de interiores nasceu multidisciplinar e conversa com setores da arquitetura e engenharia.


TEXTO PEDRO ZUCCOLOTTO
REVISTA aU 

Utilizar técnicas cenográficas e visuais para compor e decorar ambientes    internos é a função do designer de interiores. “Nosso trabalho é multidisciplinar e, de certa forma, dialogamos e tangenciamos arquitetura e engenharia" afirma Sueli Garcia, Doutora em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Os tecnólogos e bacharéis dessa área buscam a incorporação no Crea desde 2016, quando a profissão foi regulamentada pela Lei 13.369/2016. No entanto, foi só a partir de maio desse ano que esses profissionais passaram a ter a possibilidade de dar entrada no Crea-SP para solicitar seus registros profissionais. Em conversa exclusiva com a aU, Garcia conta um pouco mais sobre essa área e da importância do reconhecimento de instituições como o Crea.

“Nossa preocupação está focada em proporcionar não só a praticidade, mas também o prazer. Então, para conseguirmos um resultado com o usuário, ou seja, para que a pessoa tenha a ideia de lar, precisamos estudar uma série de abordagens sobre o que acontece na casa que ele já vive, só assim é possível projetar novos espaços, averiguando questões tangíveis, simbólicas, performáticas e emocionais de sua relação com a casa.”

Em que medida as pessoas utilizam os serviços de um profissional (designer de interiores) para construir ou reformar?
A questão é que o design de interiores está preocupado exatamente com o espaço interno o que, em geral, não é o foco do arquiteto, eu penso que começa por aí. Nós estamos preocupados com os detalhes que se relacionam com indivíduo no cotidiano, então é da casca para dentro. Nós conhecemos intimamente a necessidade de um mínimo espaço e as tarefas do dia a dia. Nossa preocupação está focada em proporcionar não só a praticidade, mas também o prazer. Então, para conseguirmos um resultado com o usuário, ou seja, para que a pessoa tenha a ideia de lar, precisamos estudar uma série de abordagens sobre o que acontece na casa que ele já vive, só assim é possível projetar novos espaços, averiguando questões tangíveis, simbólicas, performáticas e emocionais de sua relação com a casa. Portanto, se não visitarmos a casa anterior do cliente fica bem difícil começar um trabalho. Nossa área é construir lugares para experiências de vida em todas as suas ‘nuances’, tanto em ambientes privados quanto públicos, mas a experiência de casa vem se tornando a base para repensarmos espaços públicos. Para construirmos algo contamos com nossos parceiros que são arquitetos e engenheiros, que não abrimos mão. Nosso trabalho é multidisciplinar e, de certa forma, dialogamos e tangenciamos arquitetura e engenharia.

Qual é o limite de atuação entre os profissionais do setor: arquitetos, designers, decoradores?
Em grande parte, quem opta por design de interiores não quer ser arquiteto. Nas construções e reformas nós sabemos quais são os nossos limites, para derrubar uma parede, hoje mais do nunca, pensamos 2 vezes em vários aspectos: tem a própria questão estrutural que para isso chamamos parceiros aptos, e temos que averiguar se realmente é necessário, principalmente quando entramos em apartamentos novos que nossos clientes querem trocar os revestimentos. Nossas ações estão permeadas com impactos ambientes e responsabilidades de sustentabilidade. Nesse momento a RRT (Registro de Responsabilidade Técnica) está sendo construído para podermos adquirir o o registro de Design de Interiores nesse processo que foi iniciado em março de 2021. No momento iniciaram o cadastramento das instituições, enquanto estamos averiguando o currículo mínimo da profissão.

Acredito ser importante acentuar que nós profissionais não usamos a palavra decorador desde o final dos anos 1990, principalmente bacharelado. Na composição do catálogo das profissões nesse período, essa denominação foi substituída por design de interiores. Decoração entrou em desuso porque ela não dá conta da multidisciplinaridade e responsabilidade que a profissão exige. Vale acrescentar que desde esse período Design de Interiores passou a ser um segmento do campo do Design Industrial.

Por que deve existir formação específica em Design de Interiores?

Não fomos nós que inventamos a profissão de design interiores, ela
é derivada de uma necessidade da sociedade, ou seja, de um nicho que nem arquitetura e nem engenharia se dispuseram a solucionar, até porque temos que considerar que o design de interiores era totalmente menosprezado pelos 2 segmentos, mas com as novas demandas de culturas domésticas,
é necessário alguém que se detenha nesses aspectos. Por outro lado, o mercado imobiliário com uma planta básica pode construir várias torres sem grandes equipes de profissionais, tanto em arquitetura quanto engenharia, isso acabou por diminuir sensivelmente a demanda de trabalho para arquitetos e engenheiros. É possível perceber que hoje os cursos de pós-graduação em Design de Interiores são constituídos basicamente desses 2 profissionais, que buscam se inserir em interiores.

Sobre as disciplinas para a formação de design de interiores, há um conjunto que tangencia arquitetura como comentamos anteriormente, e outras que não fazem parte da formação de arquitetura como, por exemplo: fenomenologia do espaço, interiores sensoriais, cenografia, história dos interiores e do mobiliário, revestimentos para interiores, composição de espaços, design de móveis, processos industriais, Gestalt e cor nos interiores, práticas integrativas de saúde, salutogênese, saúde ambiental etc.

Quais conceitos a grade curricular de um curso de arquitetura deixa de cobrir em relação a um curso de Design de Interiores?
É importante salientar a questão das escalas entre Design de Interiores e Arquitetura. Eu acredito que as disciplinas que citei anteriormente mostram disciplinas que não são cobertas pelo curso de arquitetura que tem apenas um semestre de arquitetura dos interiores. Lembrando que hoje grande parte dos cursos de arquitetura possuem quase ou mais de 50% focado em urbanismo. Somos muito focados nas culturas, na geografia,
nos equipamentos dos interiores que vão desde a categoria de alimento, as panelas utilizadas, para averiguar o categoria de fogão, de armazenamento de alimentos, ou seja, a cultura doméstica, o genius loci do lugar etc. 

Fale sobre o reconhecimento da profissão e o registro profissional junto ao CREA. Como se deu? Qual a importância disso?
A profissão foi reconhecida pela Lei Nº 13369 DE 12/12/2016, e isso aconteceu num momento histórico
de muita pressão onde o CAU tentava puxar para si a prática profissional de vários Campos criando assim quase um monopólio para a arquitetura.
Em 2010, a Resolução Nº 51 definia uma lista de atribuições privativas de arquitetos e urbanistas, e nessa lista constava paisagismo, topografia, e algumas abordagens profissionais dos engenheiros, e design de interiores. Após uma audiência pública em Brasília, por volta de 2015, concluiu-se que era inviável essa abrangência do CAU, que também pedia a extinção de Design de Interiores. Por fim, conseguimos e desde 2017 estávamos conversando com o CREA/SP para a entrada dos Designers de Interiores. Em 2018 o CAU procurou a ABD para um início de conversa para absorver os designers de interiores, mas a conversa com o CREA, já estava em andamento. O que foi conversado com o CAU foi a montagem de grupos de estudos para no futuro pensarmos sobre parcerias. Mas desde esse semestre iniciamos parceria com os engenheiros, numa campanha da ABD “adote um engenheiro”.

Há 2 meses, consolidamos essa parceria e as instituições estão se cadastrando no CREA, agora em mais de 11 estados, para que os profissionais se cadastrem. Mas nossa parceria com o CREA é de longa data. Em 1988 eu era professora da escola técnica Carlos de Campos e naquele período nossos alunos de Design de Interiores e Edificações já tinham registro do CREA e até onde eu saiba, nunca deixaram de ter esse registro. O que aconteceu é que os técnicos passaram a pertencer desde 2020 ao Conselho Regional dos Técnicos Industriais (CRT-SP). Os tecnólogos já iniciaram o processo de cadastramento no CREA. No caso dos bacharéis em Design de Interiores eles se cadastram como tecnólogos e logo que o processo de inserção dos bacharelados terminar, ele migra para essa categoria.

A importância é histórica de uma categoria que nasce de uma necessidade social e expande suas fronteiras profissionais. Hoje, o Design de Interiores é reconhecido no mundo. Posso dizer isso porque em 2019 estive como parte da delegação brasileira no grande encontro da IFI (International Federation of Interior Architects/Designers) e recebemos feedback de vários países africanos, europeus, norte-americanos, leste europeu e extremo oriente que hoje são muito atuantes em interiores.  

“A importânciaé histórica de uma categoria que nasce de uma necessidade social e expande suas fronteiras profissionais. Hoje, o Design de Interiores é reconhecido no mundo. Posso dizer isso porque em 2019 estive como parte da delegação brasileira no grande encontro da IFI e recebemos feedback de vários países africanos, europeus,norte-americanos, leste europeu e oriente, que hoje são muito atuantes em interiores. “

Sueli Garcia - Doutora em Educação, Arte e História da Cultura do Mackenzie-SP (2014), mestra em Comunicação pela UNIP (2002) e graduada
em Design pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo (1986). Atualmente é docente e coordenadora dos cursos de graduação de Design de Interiores e Design de Produto do Belas Artes-SP. Também é docente dos cursos de Pós-graduação em Design de Interiores e do Mestrado em Arquitetura, Urbanismo e Design da mesma instituição. É autora dos livros “Arquitetura do Espaço Cenográfico” (2011) e Arte e Cultura na Moda como fundamentos do vestir contemporâneo (2014). É conteudista do EAD de História do Design da Belas Artes. É Vice-presidente do Acadêmico da ABD - Associação Brasileira de Designers de Interiores. Desde 2010 é head e co-fundadora do escritório P.O.Box Design, empresa que desenvolve Tendências, Visual Merchandising, Produtos e Interiores Comerciais, através de Projetos e Consultoria, e conta com 2 prêmios na área em 2018 e 2019. Desenvolve figurino e cenografia para instituições culturais como Unifesp e Sesc há 16 anos.

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